PREGAÇÃO DO EVANGELHO NO MUNDO ESPIRITUAL


 

Este texto é uma transliteração de um dialogo mantido por mim (Irineu) e um Pastor da Igreja Assembléia de Deus (Pastor Airton) num fórum evangélico em 2003.

 

Pastor Airton:Note-se: "Eu te glorificarei na terra, completando a obra que me deste para fazer" (Jo 17.4); "Está consumado" (Jo 19.30). Na cruz, cessaram não só o sofrimento e a agonia de Jesus. Na verdade a sua obra de redenção fora consumada. Ele não continuaria pregando as Boas Novas por todos os séculos dos séculos. Não teria nada contra a pregação de Jesus no além, para oferecer nova oportunidade aos rebeldes. Jesus ficaria à entrada do lugar de tormentos e com certeza convenceria todos a seguirem com Ele para o céu. Mas as Escrituras não indicam esse caminho. A pregação do evangelho da segunda chance aproxima-se do espiritismo, que admite quase infinitas chances ao espírito rebelde.

 

Irineu:Aqui, talvez, exista um mal-entendido sobre nossa doutrina.

 

Não acreditamos que Jesus esteja até hoje pregando o batismo aos mortos. Jesus passou apenas aqueles 3 dias lá. Durante aquele período, acreditamos que Ele chamou e comissionou outros – como fez entre os vivos - para pregarem o evangelho das boas novas para todos que não tiveram verdadeiramente esta oportunidade quando estiveram entre os vivos.

 

Não é uma segunda chance. Não ensinamos e nem entendemos assim. No mundo espiritual, o evangelho é pregado para todos aqueles que por “n” razões não tiveram condições de ouvir ou mesmo aceitar as boas novas de Cristo.

 

Alguns acreditam que a aceitação de Cristo deve ser muito fácil lá no mundo espiritual, pois quem não aceitaria a Jesus, depois de morto lá no mundo espiritual? A verdade é que todos os homens mantêm o seu livre arbítrio lá também. E assim como aconteceu, mesmo na época da pregação e milagres de Cristo, onde muitos presenciaram a tudo e ainda assim não o seguiram, lá também pode ocorrer o mesmo.

 

Só para ilustrar, meu avô contava que tinha um amigo que era muito amante dos prazeres do mundo. Gostava muito de beber e sair com muitas mulheres. Um dia, os dois conversando, ele perguntou para meu avô (que era adventista do sétimo dia):

 - José, para este Céu que vc deseja ir, terá bebida?

Meu avô replicou:

- claro que não!

Ele continuou:

- Terei as mulheres de vida fácil que tenho por aqui?

Mais uma vez, meu avô respondeu:

- Não, essas coisas não existem no Céu.

Então, ele disse:

-  Se é assim, José, esse seu Céu, isto não me serve, pois não tem o que eu gosto...

 

No mundo espiritual, existem aqueles que aceitam o evangelho e aqueles que não o aceitam.

 

Pastor Airton: Qual a finalidade da passagem do ladrão por onde estavam os "espíritos em prisão"? Ouvir a pregação de Jesus para que cresse e se convertesse. Mas essa conversão aconteceu na cruz.

 

Irineu: A conversão, Pastor Airton, entendo como um processo que demanda tempo. Não é algo que acontece de uma hora para outra. É um processo de muitas lutas diárias, de escolhas e acima de tudo de sacrifício em perseverar até o fim. Penso que o ladrão não teria tido esse tempo e nem essas qualificações naquele momento de sofrimento que estava passando, até porque estava tomado por uma excessiva carga emocional.

 

É óbvio que suas palavras não eram mentirosas, mas o desespero e as dores pelas quais passava, certamente contribuíram de forma decisiva para uma aproximação de Cristo, mas longe disso ser uma conversão.

 

São muitas as escrituras que falam de “perseverar até o fim” para receber a coroa da vida eterna. E essa perseverança é que produz a conversão. Não acredito que isto ocorra de uma hora para outra ou mesmo no leito de morte. Cristo teria dois pesos e duas medidas e isso não coaduna com o caráter e a justiça Dele.

 

Conhecemos as famosas palavras de Cristo a Pedro: “Mas eu roguei por ti, para que a tua fé não desfaleça; e tu, quando te converteres, fortalece teus irmãos”(Luc 22:32).

 

Veja que nem Pedro e os demais apóstolos eram convertidos. Ora, sendo que Jesus estava inclusive rogando para que a fé de Pedro não sucumbisse, poderia um ladrão que passara toda uma vida longe de uma existência cristã ser convertido só porque pediu para estar presente no reino com Cristo... Entendo que não.

 

Pastor Airton: Ao reconhecer que Jesus era o Filho de Deus, que possuía um reino e que havia sido crucificado injustamente (Lc: 23.41,42), o malfeitor revelou que conhecia a pregação de Jesus.

 

Irineu: Não entendo que ele conhecia o suficiente para ser salvo, até porque momentos antes ele juntamente com o outro ladrão estava blasfemando de Cristo: “A outros salvou; a si mesmo não pode salvar. Rei de Israel é ele; desça agora da cruz, e creremos nele. Confiou em Deus, livre-o ele agora, se lhe quer bem; porque disse: Sou Filho de Deus. O mesmo lhe lançaram em rosto também os salteadores que com ele foram crucificados”. (Mat. 27:44)

 

“De igual modo também os principais sacerdotes, com os escribas, escarnecendo-o, diziam entre si: A outros salvou, a si mesmo não pode salvar, desça agora da cruz o Cristo, o rei de Israel, para que vejamos e creiamos, também os que com ele foram crucificados o injuriavam. (Mc. 15:32)

 

Portanto, reforço que a conversão é algo que vai muito além de um momento de desespero e dor e, sim um processo que exige conhecimento, obediência e perseverança.

 

Pastor Airton: O "bom" ladrão iria ao acampamento dos "espíritos em prisão"  como convidado especial, apenas para cumprir etapa? Pouco provável. Se realmente o ladrão  se dirigiu ao lugar restrito aos desobedientes do tempo de Noé,  ali seria um estranho no ninho. Ou seja, não fazia parte do rol ao qual se referiu Pedro. 

 

Irineu: O fato de Pedro não o ter citado, não vejo como negação para que ele não estivesse lá, afinal, não foi Cristo que disse: Hoje estarás comigo no Paraíso!

 

Pastor Airton: Se o amado tivesse optado pela ida de Jesus depois da ressurreição,  para anunciar sua vitória sobre a morte, sua argumentação teria melhor sustentação, embora também refutável.

 

Irineu: Mas, Pastor Airton, não foi isso que Jesus fez aqui entre os vivos antes TAMBÉM de sua ressurreição, ou seja, a vitória sobre a morte como o senhor tão bem expressou?

Pastor Airton: Somente em duas hipóteses o espírito de Jesus deixou de subir para o Pai: 1) Jesus não orou com sinceridade de coração; não estava entregando nada ao Pai; 2) Jesus orou com sinceridade, entregou seu espírito, mas o Pai, por motivos que desconhecemos, não o quis receber. As duas hipóteses são totalmente absurdas.  No caso do salmista, podemos admitir a tese da  submissão. No de Jesus, não. Por todo o seu ministério terreno Jesus foi obediente ao Pai, e obediente até à morte (Fp 2.8). Não havia necessidade de expressar sua obediência no último suspiro. Ele entregou realmente seu espírito, e logo em seguida expirou (Lc 23 46). A entregar seu espírito ao Pai, Jesus não estava usando uma linguagem figurativa. Tanto é verdade que logo após fazê-lo, expirou.

 

Irineu: Se Jesus não foi ao Pai, por que Ele disse a Madalena: “Não me toques, porque ainda não subi ao Pai; mas vai a meus irmãos e dize-lhes que eu subo para meu Pai e vosso Pai, meu Deus e vosso Deus". (Jo. 20:17)

 

Observe aqui, Pastor Airton, que Jesus diz, logo após os 3 dias, que não tinha subido ao Pai. Em seguida, Ele confirma mais ainda isso ao dizer: Mas, vai e dize-lhes que eu subo...

 

Percebe? Ele não tinha ido mesmo.

 

Onde estaria Jesus naqueles 3 dias. No túmulo? Poderia o Salvador do mundo ficar 3 dias no “nada”, no “vazio”, já que Ele próprio de forma inequívoca afirmara a Madalena que não tinha subido ao Pai.

 

Onde estaria Jesus? Ainda, segundo a concepção evangélica, se Jesus é Deus também, como poderia Deus ficar no nada, no vazio? Difícil conciliar isso, não acha?

 

Lembrando o que o próprio Salvador disse: “Não subi..., mas dize-lhes que Eu subo..."
 

Pastor Airton: Disse bem: "Jesus foi ao Céu", não se configurando uma subida definitiva, em corpo glorificado. Naquele momento o corpo não poderia seguir junto, por óbvias  razões: Ele não ressuscitara. A mesma pergunta caberia no caso de Sua ida ao cárcere dos espíritos condenados. Jesus foi ao Paraíso-Céu e deixou seu corpo na terra. Quando ao Paraíso-Céu já expliquei.

Irineu: Pelo que entendi, o senhor afirma que Jesus foi ao Céu com Seu espírito e deixou seu corpo na tumba. Também creio que o corpo de Jesus ficou na tumba, porém não creio que Ele foi em espírito ao Pai.

 

Jesus disse de forma mui clara que não tinha subido ao Pai. Ora, se não tinha subido, Ele não subiu nem com o corpo, nem com o espírito.

 

Ou seja, quando Ele afirma “não me toques porque não subi ao Pai”, Ele quer dizer... Não subi ao Pai!

 

E na seqüência do dialogo com Madalena, quando Ele diz: “Mas vai e dize-lhes que subo ao Pai”, quer dizer que somente a partir dali é que Ele estava indo ao Pai. Acho isso simples e de fácil entendimento.

 

Pedro de forma inquestionável, complementa essa situação, quando em duas ocasiões em suas epístolas diz: “Porque também Cristo morreu uma só vez pelos pecados, o justo pelos injustos, para levar-nos a Deus; sendo, na verdade, morto na carne, mas vivificado no espírito; no qual também foi, e pregou aos espíritos em prisão” (I Pe. 3. 18-19)

 

“Pois é por isto que foi pregado o evangelho aos mortos, para que, na verdade, fossem julgados segundo os homens na carne, mas vivessem segundo Deus em espírito”. (I Pe. 4:6)

 

As escrituras mui coesamente ensinam que Jesus realmente não foi ao Céu, mas ao mundo espiritual e lá pregou aos mortos.

 

Afinal, Jesus mesmo disse: Em verdade, em verdade vos digo que vem a hora, e agora é, em que os mortos ouvirão a voz do Filho de Deus, e os que a ouvirem viverão”. (Jo. 5:25). Perceba o futuro dos verbos usados na frase: ouvirem... viverão... que é diferente do versículo anterior (o 24) quando Jesus se refere aos vivos, aqueles que o estavam ouvindo nessa ocasião: "Em verdade, em verdade vos digo que quem ouve a minha palavra, e crê naquele que me enviou, tem a vida eterna e não entra em juízo, mas já passou da morte para a vida. Perceba o uso dos verbos no presente: ouve... crê...

 

Portanto, Jesus esteve pessoalmente no mundo espiritual e lá pregou Suas boas novas também e, assim tanto a misericórdia quanto a justiça divinas permanecem em perfeita harmonia, demonstrando a perfeição de Deus e Seu Plano de Salvação para Seus filhos.

 

Fim do dialogo.