NÃO DEIXEM MEU BEBÊ MORRER!

 


O Amor de Uma Mãe e o Incrível Trabalho Missionário do Seu Bebê


 

Sharon Belknap,

Ensign, dezembro de 2001, pg. 22-25


O médico disse que nosso bebê não tinha chance de sobreviver. Tudo que eu queria era uma hora para conhecer nossa criança especial.

Eu estava no sexto mês e meio de uma gravidez tranqüila e ansiosa por saber se nosso bebê seria menino ou menina. Conforme o técnico começou o ultra-som, vi seu semblante se transformar. Ele parou de falar, começou a tirar muitas fotos e logo vieram vários médicos. Pude ouvi-los falar sobre nosso bebê, um menino, mas não pude entender muito do que diziam. Obviamente havia algo errado. Comecei a imaginar cenários: meu bebê sem um braço ou com a Síndrome de Down. Satisfiz-me por saber que seria capaz de aceitar qualquer forma de deformidade, mas mantive-me orando: Por favor, não deixe meu bebê morrer!

Telefonei para meu marido, que veio correndo, e o médico nos chamou em sua sala. Disse-nos que o crânio de nosso bebê não estava totalmente desenvolvido. Mandou-nos a uma especialista para confirmar o diagnóstico. Ela explicou que nosso filho tinha uma encefalocele, ou seja, seu cérebro não estava totalmente contido no crânio. Ele também tinha um buraco no coração. Ela disse que ele não teria qualquer chance de sobrevivência e nos encorajou a terminar a gravidez imediatamente. Eu confiava nesta especialista, mas também sabia que havia coisas como milagres. Não havia qualquer dúvida em minha mente de que eu o queria comigo até o fim. Se houvesse algum milagre para acontecer, eu queria estar pronta. Orei em meu coração ao Pai Celestial para que poupasse nosso filho.

Meu marido e eu voltamos para casa com nossos corações partidos. Eu só pensava Não posso acreditar que isto está acontecendo! Tivemos que começar a planejar um funeral para nosso filho que nem tinha nascido!

Após considerar o assunto em espírito de oração, decidimos: É nosso filho. Se tiver que morrer, o carregaremos em nossos braços por tanto tempo quanto viver, e o amaremos. Não pude dormir naquela noite. Finalmente derramei meu coração ao Pai Celestial. Eu sinceramente precisava de Sua ajuda para aceitar este desafio. Senti-me compelida a ler, dos ensinamentos de Joseph Smith, sobre as experiências que ele e sua mulher Emma enfrentaram com a perda de seis filhos pequenos. Senti uma paz envolvendo-me e soube que esta poderia ser uma importante experiência espiritual em nossas vidas.

O nascimento de Christopher
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Nos dois meses seguintes preparamo-nos fisicamente e emocionalmente para o parto cesáreo de nosso filho. Decidimos chamá-lo Christopher Austin - Christopher como seu pai e Austin que significa exaltado. Senti-me muito próxima a ele. Se ele não se movesse por algum tempo e então eu sentisse um pequeno chute, imaginaria que estava dizendo:Estou aqui, mamãe.

Finalmente chegou o dia da cesariana. Tudo o que eu queria era uma hora para conhecer nosso filho especial, mas o médico achava que aquela era uma expectativa muito alta. Eu sabia que o que estava para acontecer era uma experiência que mudaria minha vida. Também sabia que teria forças para enfrentar os desdobramentos. Quando meu obstetra, Dr. David Wolf, e um amigo da família e membro da Igreja, Dr. Rod Poling, entraram na sala, senti-me calma. Com meu marido ao meu lado, a cirurgia começou. Eu ainda esperava que tudo estivesse bem com nosso bebê. Observei o semblante de meu marido enquanto assistia a cirurgia. Esperei para ouvir o choro do bebê, mas não houve choro - apenas um minúsculo grunhido quando o bebê foi entregue à enfermeira.

Imediatamente, várias enfermeiras começaram a trabalhar nele, tirando impressões digitais e sugando líquido de sua boca. Após alguns minutos, o Dr. Poling apressou as enfermeiras para que nos trouxessem o bebê para que pudéssemos nos despedir dele. Elas o deitaram próximo à minha cabeça. Sua testa recuada e nariz proeminente faziam-no parecer um pequeno e esperto duende. Beijei meu bebê, juntei-o a mim e disse-lhe que o amava. Então meu marido e o Dr. Poling deram-lhe uma bênção na qual deram-lhe um nome.

Nosso filhinho estava enfraquecendo rápido. Seu corpo tinha uma coloração apurpurada-enegrecida e seus batimentos cardíacos estavam diminuindo. Num esforço de dar-nos mais alguns minutos, o Dr. Poling trouxe oxigênio e bombeou um pouco sob seu nariz. Em minutos, Christopher ganhou uma coloração rosada e seu batimento cardíaco acelerou. Sabíamos que seria temporário, mas nos animamos com a possibilidade de que os membros da família e amigos na sala de espera poderiam conhecer nosso filho.

Quando o médico terminou a cirurgia, meu marido e eu pegamos Christopher. Ele não fez nenhum som, Não podia mexer seu corpo. Ele só abria um olho de cada vez, no entanto sua presença nos dizia muito. Após cerca de 40 minutos, Christopher e eu fomos levados à sala de recuperação numa cadeira de rodas. Nossos amigos e parentes se aglomeraram para ver nosso bebê. Houve ohs! e ahs! e lágrimas. Os preciosos minutos tornaram-se horas e pareciam um sonho. Uma enfermeira veio e disse que precisava pesar e limpar o bebê. Entreguei-o relutantemente. Fui transferida para um quarto e a enfermeira nos trouxe Christopher de volta. Seus 48,9 cm e 2,2 kg estavam de volta em meus braços.

Tanto amor
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Conforme o dia passou, muitos amigos vieram. Realmente senti que Christopher tinha uma missão aqui e tocaria as vidas de muitos. Não pude dormir naquela noite com Christopher perto de mim. Eu queria saborear cada momento. Ele se asfixiou várias vezes naquela noite, até quando meu marido e eu percebemos que ele não podia engolir. Então, periodicamente aspirávamos sua boca. Gradualmente, percebemos o problema maior - se não podia engolir, não poderia se alimentar. Já tínhamos decidido não tomar nenhuma medida extraordinária para prolongar o inevitável, mas eu não poderia tolerar a idéia de nosso bebê morrer de fome. Então decidimos deixar o médico alimentar Christopher com um tubo. No entanto, conforme nossas tentativas falhavam, decidimos que o melhor que poderíamos fazer seria manter sua boca úmida com um algodão molhado.

Não só Christopher não tinha reflexos de deglutição, mas também fazer cócegas em seus pés com freqüência fazia com que os dedos dos pés flexionassem-se para cima, e não para baixo. Sua temperatura corporal flutuava entre 32º e 41ºC, e seus batimentos cardíacos e respiração oscilavam tanto quanto a temperatura. Era aparente que ele era cego e surdo, já que não respondia a estímulos luminosos ou sonoros. No entanto, podia abrir os olhos e movê-los. Se abrisse ambos ao mesmo tempo, daria uma pequena olhadela ao redor. Não deixei Christopher sair de meus braços exceto quando absolutamente necessário. Em várias momentos em que o fiz, ele ficava agitado e parava de respirar. Precisava de respiração boca-a-boca para voltar a respirar.

Cada pessoa que entrava no quarto podia sentir seu espírito especial. Uma enfermeira comentou com uma colega: Entrar naquele quarto me arrepia. Há tanto amor nele. Estivemos ocupados respondendo perguntas sobre nossa fé e crenças. Um amigo até fez uma pequena plaqueta missionária para o Christopher em reconhecimento ao poder de sua influência.

No terceiro dia notei que, conforme eu colocava o algodão molhado em sua boca ressecada, ele movia os lábios em resposta. Seu reflexo de deglutição tinha aparecido! O reflexo de sugar veio em seguida e então fui capaz de alimentá-lo. Sua força aumentou. Já tínhamos nos acostumado com a idéia de sua morte, mas agora encarávamos uma perspectiva ainda mais assustadora e se ele sobrevivesse? Ficaria confinado a um corpo que requeriria cuidados 24 h por dia? Poderia nosso bebê ser milagrosamente conduzido a algum tipo de normalidade? Qualquer que fosse o caso, senti que tudo aconteceria conforme a vontade do Senhor e que faríamos o melhor para nos prepararmos para a ocasião.

No quarto dia tive alta do hospital com nosso filho e com uma franca admissão por parte dos médicos de que o cuidado com ele estava totalmente além do escopo de sua arte. Naquele momento sabíamos que o traríamos para casa para morrer; era apenas uma questão de quando. Uma vez em casa, constantemente monitorávamos seus batimentos cardíacos, respiração e temperatura. Quando ele ficava azul, o aquecíamos e ele imediatamente tornava a ficar rosa. Quando sua temperatura subia muito, o resfriávamos novamente. Com freqüência, ao engolir um bocado de leite ele parava de respirar por um alarmante período de tempo. Mas, conforme eu cuidava dele, pude ver o espírito lutador que possuía.

No sétimo dia, Christopher produziu seus primeiros sons que ao longo do dia foram de um suave arrulhado para pequenos choros. Num dado momento, nosso filho de 20 meses, Brett, parou o que fazia e começou a arrulhar também. Por vários minutos, pareceu que estavam produzindo algum tipo de diálogo musical.

Despedidas
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Naquela noite, quando peguei Christopher em meus braços com a família reunida, ele deu seu último suspiro. Comecei a ressuscitá-lo e repentinamente senti uma calma e pacífica certeza de que tudo tinha acabado.  Christopher Austin Belknap tinha servido sua breve missão nesta terra e fizemos-lhe nossas despedidas em meio a muitas lágrimas. Ao nos dirigirmos para o hospital, segurei-o suavemente contra minha bochecha. Eu não queria deixá-lo ir. No hospital, tivemos a chance de segurá-lo uma última vez. Então eles o levaram e trouxeram de volta suas roupas e cobertor. Acho que aquela foi a parte mais difícil.

No domingo fizemos um funeral simples. Muitos de nossos parentes e amigos compareceram, incluindo vários funcionários do hospital. Conforme os tios de Christopher cuidadosamente derramavam terra sobre seu pequeno caixão, entristeci-me sabendo que, na mortalidade, eu jamais acariciaria sua face novamente ou o agasalharia à noite. Mas eu também sabia com certeza que o veria novamente.

Uma autópsia revelou que a base do cérebro não tinha se desenvolvido totalmente. Os defeitos circulatórios eram tão severos que o sangue na realidade circulava ao contrário. O patologista ficou surpreso em ver que o bebê tivesse vivido.

Mas Christopher viveu! Ele nunca expressou nenhuma palavra e dificilmente produzira um som, mas que lições nos deixou! Foi uma maravilhosa bênção ter tido aqueles sete dias com ele. Eu não trocaria essa experiência por nada. Concordo com o Apóstolo Paulo, que disse aos Filipenses: (...) já aprendi a contentar-me com as circunstâncias em que me encontre. (...) Posso todas as coisas naquele que me fortalece. (Filipenses 4:11-13.)

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PUROS DEMAIS PARA VIVER NA TERRA
O Senhor leva muitos embora, mesmo na infância, para que escapem da inveja do homem e das tristezas e maldades do presente mundo; eles eram puros demais, maravilhosos demais, para viver na terra; então, se considerarmos corretamente, ao invés de lamentar temos razão para nos alegrar porque estão livres do mal e em breve os teremos novamente.(Joseph Smith Jr., Ensinamentos do Profeta Joseph Smith, sel. Joseph Fielding Smith [1976], PG. 196-197.)

 Tradução livre por Marcelo Todaro
 

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